Dia 18/08/2004
De Sevilha a Algeciras são 190km, em média 2h30 de viagem. Precisávamos chegar a tempo de deixar as malas no hotel e pegar o ferry para Tanger. A escolha de Algeciras é por ser ela a maior cidade na Baía de Gibraltar, seu porto é um dos maiores da Europa e do mundo, as opções de horários de ferries entre a cidade e o Marrocos são inúmeras, apesar de mais demorados que os ferries que partem de Tarifa para Tanger, mesmo assim achei que a cidade teria melhor estrutura hoteleira e me atraiu a bela visão do Rochedo de Gibraltar.
A ideia da visita ao Marrocos veio da novela O Clone e foi ganhando força. Queria conhecer Casablanca ou Marrakesh, mas lembre-se que nossa viagem era “dinâmica” e teríamos apenas um dia, quando comecei a traçar o roteiro ficou impossível por causa das distâncias e das poucas opções de deslocamento. Ao final decidimos ir a Fez ou Tânger dependendo da hora, Tânger era mais perto e afinal também tinha uma medina, que é onde fica o comércio do centro histórico da cidade. Já imaginava aquele burburinho alegre e colorido, assim como na novela… errei feio!
O problema começou para achar o hotel em Algeciras. A cidade é um emaranhado de ladeiras minúsculas e quando erramos o caminho na primeira vez, foi difícil fazer a volta. Isso nos atrasou e já era tarde quando conseguimos chegar ao pier para pegar o ferry, são inúmeras agências que vendem o bilhete. Mas era verão e o sol brilhava até oito ou nove da noite, decidimos ir assim mesmo. A travessia é feita em 1:30, mas ganhamos uma hora por causa do fuso, no Marrocos não existe horário de verão.
A travessia foi tranquila, apesar de alguns marroquinos nos olhando, o combinado era seguir as regras locais ou seja, a roupa das mulheres não devia ser colada, transparente, curta, extravagante ou decotada. No ferry conversamos com um rapaz que era dono de um restaurante típico e nos convidou para comer lá. Do outro lado um senhor nos olhava de forma estranha, não reconhecia o nosso idioma talvez, e posso jurar que ele nos compraria do Rogério por alguns camelos… Tudo certo, até a chegada na estação do Marrocos. Aquilo é o caos.
Apinhada de gente falando francês ou árabe, e nós sem saber como chegar até a medina fomos imediatamente cercados por crianças oferecendo serviço de guia, puxando nossa roupa e prontos para ganhar nossas mochilas. Fomos quase correndo em direção a saída e caímos direto na lábia insistente de um guia que parecia mais simpático, ao menos era adulto, aceitamos o serviço dele que logo nos arrumou um táxi e indicou ao motorista onde deveria nos deixar, ele estaria nos esperando. O carro era uma atração a parte, 6 pessoas dentro de um Mercedes velho, num calor insuportável (verão na europa, de novo, não recomendo!). Queria abrir o vidro e cadê a maçaneta? Perguntamos ao motorista e ele sem cerimônia pegou ao lado da porta dele a maçaneta única que servia a todas as portas, encaixamos no pino e giramos para abrir o vidro direito, tiramos e encaixamos do esquerdo, prático!
Ele nos deixou na entrada da medina e lá estava o guia, como ele chegou antes não faço ideia. Começou ali uma correria atrás dele, que se recusava a falar com as mulheres, só se dirigia ao Rogério. Quando meu primo mostrou o folder do restaurante que ganhamos no barco, o guia pegou, olhou, resmungou que era um local “turístico” demais e jogou fora, assim!! Mas nós éramos turistas! Bom, continuamos correndo atrás dele e na segunda rua eu já olhava para aquilo que parecia um labirinto com a certeza de que se me perdesse da turma, nunca mais sairia dali… Bem disse minha prima, quando passamos num corredor polonês em uma viela deserta em meio a uns 10 homens, “vi toda minha vida passar em segundos pela cabeça, achei que nunca mais fosse ver meu filho”. Ele conseguiu nos levar aos piores e mais pobres locais dessa medina, confirmamos isso ao final da visita quando chegamos a um monte onde a a muralha antiga podia ser vista com canhões e uma bela paisagem, paramos para fotografar e do lado oposto ao que viemos o movimento era bem mais interessante. A certa altura nos levou a um comércio de tapetes e fomos quase obrigados a comprar um, mas ninguém queria um tapete, como trazer aquilo no carro? E no voo de volta? Nessa loja ainda tivemos que tomar o tal chá de limão. Nunca recuse o chá oferecido, é um insulto, uma ofensa, mas imagine uma infusão quente num lugar em que o calor beira o insuportável.
Debaixo de muita ira, deixamos a casa sem comprar nada e fomos ao restaurante indicado pelo nosso simpático guia. Sentamos e pedimos cuscuz marroquino, claro. O garçom era um antipático rapaz louro de olhos claros, nos pareceu um inglês convertido ao islamismo, pois a certa altura parou o serviço da mesa para rezar de joelhos. O problema foi quando ele nos serviu com o dedo literalmente dentro do cuscuz e esbravejou impropérios quando a Marta pediu uma coca-cola, mas assim mesmo foi buscar na rua pois não serviam no restaurante, a comida estava péssima, nos sentimos reféns dele e do nosso guia. A bem da verdade no restaurante havia um casal certamente de turistas que estavam alegres, felizes com sua visita e pensamos que o problema não era a cidade e sim o guia escolhido.
Logo que saímos pedimos que nos levasse embora, queríamos sair dali. Foi então que vimos o monte, a vista muito bonita de toda a medina e o lado oposto que nos pareceu bem mais agradável. Talvez se não tivéssemos nos assustado na estação das barcas e o guia não fosse tão pouco educado, teríamos nos divertido mais. Saímos dali e pegamos o nosso Mercedão sem maçaneta que nos esperava na saída da medina e pedimos para dar uma volta na cidade nova. Fomos a praia. E é verdade, as mulheres usam os trajes tradicionais, longos e fechados mesmo na areia, e o calor era medonho!
Pegamos o ferry de volta por volta das 19hs, fiquei triste por não poder curtir mais a minha primeira visita a um país tão tradicional, quem sabe na próxima? Mas a verdade é que você tem que estar pronta se quer visitar um país com costumes diferentes dos ocidentais. O correto seria dormir uma noite lá, contratar antes um guia local e levar em conta que muito do que parece estranho para nós é apenas parte da cultura deles. Na imigração na volta é de se destacar o tumultuado acesso a imigração. Tenha todos os documentos em mãos e muita paciência para enfrentar a fila para acesso ao barco.
O Hotel que ficamos foi o Husa Alarde, achamos nesse site de hotéis econômicos; bem central e por incrível que pareça tivemos alguma dificuldade em achá-lo, fica em um trecho de rua sem saída que tinha o mesmo nome da transversal principal. Acabamos em algumas ladeiras antes de conseguir chegar ao endereço correto que era uma rua de pedestres, mas muito bem localizado, 20min de caminhada até o porto onde saem os ferrys.
Dia longo, só nos restou comer e dormir pois no dia seguinte a parada era uma cidade que sempre tive vontade de conhecer: Granada.